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domingo, 19 de julho de 2020

Imunidade ao coronavirus no Ceará é incerta; ciência busca respostas

Quanto de uma população precisa se infectar para que uma pandemia perca força? Uma contaminação massiva reduz a transmissão da Covid-19? A infecção é passaporte para a proteção? Por que Fortaleza reabriu as atividades, e os casos não aumentaram, mesmo que parte dos habitantes, segundo dados oficiais, ainda não tenha sido exposta ao vírus? Autoridades de saúde e pesquisadores tentam responder essas e outras questões. Mas, parte delas segue inconclusiva.

Estudos feitos em Fortaleza estimam que entre 14% e 20% da população foi contaminada e têm anticorpos. Contudo, especialistas não recomendam cogitar a proteção a partir de um contágio massivo - a chamada imunidade de rebanho - , pois, ressaltam, ainda que há muito desconhecimento sobre a Covid e as condições que, de fato, asseguram essa imunidade.

No Ceará, moradores de Fortaleza, Sobral, Quixadá, Juazeiro do Norte, Crateús e Iguatu passaram por pesquisas que medem quanto da população já teve a doença. São estudos chamados de inquéritos sorológicos. Uma das análises foi feita pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e financiada pelo Ministério da Saúde. Outra tem sido realizada na Capital, Sobral e Iguatu pelo Governo do Estado em parceria com as prefeituras.

As investigações ocorreram em períodos distintos e têm diferentes números. Mas, de modo geral, partem de um mesmo conceito. Por meio delas, uma determinada amostra da população é testada para que seja identificado o número de pessoas já infectadas naquele território. O resultado é amplificado para o total dos habitantes de cada cidade de modo proporcional à população.

Na avaliação nacional, os dados mais recentes foram divulgados no início de julho e apontaram Sobral como a cidade do Brasil com a maior proporção de pessoas que têm ou já tiveram a infecção por Covid-19. A projeção é que 26,4% dos moradores do município da Região Norte estariam imunizados. O mesmo estudo indicou que, ao menos, 20,20% da população de Fortaleza foi infectada.
Mapeamento

Já a investigação feita pela Prefeitura de Fortaleza em conjunto com o Governo Estadual, apontou que 14,2%, dos habitantes da Capital, o equivalente a cerca de 380 mil pessoas, já contraíram a doença. Mas, é esse um dos achados carentes de aprimoramento. Pois, esse índice de contaminados é considerado baixo e se torna mais complexo diante do fato de Fortaleza não ter registrado novos picos da doença apesar da reabertura e maior circulação de pessoas.

Para o epidemiologista e gerente da Célula de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, Antônio Lima, Fortaleza vive uma situação que tem sido experimentada em outras cidades do mundo. Há um movimento de queda dos casos sem que se tenha alcançado a chamada imunidade de rebanho. Em todos as localidades, explica Antônio, ainda há muitas dúvidas sobre os motivos do não aumento de confirmações, apesar da reabertura.

"Os inquéritos sorológicos não têm observado sequer 20% de contaminação, como é o caso de Nova York e Fortaleza. Nenhum dos inquéritos apresentava mais de 20% ou 25% de desenvolvimento de anticorpos. Então, essa discussão se construiu a partir daí. Como algumas cidades conseguiram derrubar o número de casos, sem que tenha havido repique, quando voltou?".

Antônio esclarece que a constatação da baixa proporção de pessoas contaminadas pode ter dois motivos: falha nos testes rápidos e, com isso, a população que desenvolveu anticorpos é maior que do está sendo estimada nas investigações feitas tanto no Brasil como em outras partes do mundo; e a hipótese, que ainda tem uma perspectiva mais especulativa, conforme ele, de que uma fração da população não estaria suscetível ao vírus. No caso dos números subestimados, Antônio acrescenta, ao invés de Fortaleza ter 20% da população contaminada, seria 30% ou até 40%.
Imunidade de rebanho

Uma ideia que ganhou ênfase na pandemia é a chamada imunidade de rebanho. Essa teoria projeta que a imunidade de uma população pode ser adquirida por meio de vacinação ou por contaminação massiva. Ao se chegar a um determinado número de indivíduos imunes (por vacina ou contágio) a transmissão do vírus recua. Diante da atual realidade de Fortaleza, é possível apostar nessa ideia para a proteger a população?

"A imunidade de rebanho é usada geralmente para planejar a cobertura vacinal de uma determinada população. Conheço a vacina e tento definir qual a proporção mínima da população que precisa estar vacinada para evitar casos ou surtos. Mas, essa doença (Covid) tem uma monte de coisas em aberto. Levar essa teoria para tomar decisões práticas é complicado", avalia o infectologista do Hospital São José e professor da Universidade de Fortaleza, Keny Colares.

A análise é reiterada pelo biólogo, epidemiologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luciano Pamplona. "Podemos ou não aplicar a imunidade de rebanho para o que está havendo com a Covid? Na minha leitura, não. Porque quando falamos em imunidade de rebanho, falo em um número grande de pessoas protegidas. Quando pegamos os trabalhos de prevalência em Fortaleza, que são os estudos mais importantes que têm, o último mostra que aproximadamente 20% já teve contato com o vírus. Então, como pensar a imunidade de rebanho se eu tenho 80% da população suscetível à doença?", questiona.

Outro ponto na qual ainda predominam dúvidas é quanto da população está de fato vulnerável.

"Supomos que todas as pessoas são suscetíveis a se infectarem, mas, na verdade não temos certeza. Algumas pessoas defendem que essa doença não é uma doença que 100% da população possa pegar. Elas podem ter algum tipo de proteção que as deixaria imunes", explica Keny.

Essa perspectiva, conforme o epidemiologista Antônio Lima, pode ser uma das dimensões que explica o fato de Fortaleza não ter registrado aumento de casos após a reabertura. "É outra nuance, em caráter especulativo, estudiosos do mundo inteiro têm sugerido que existiria uma fração da população que não estaria suscetível ao vírus".

O presidente da Sociedade Cearense de Infectologia e professor do Departamento de Saúde Comunitária da Faculdade de Medicina da UFC, Guilherme Henn, avalia que o Brasil ainda está muito distante de "atingir essa imunidade de rebanho" e acrescenta que é muito difícil medir esse índice. "Quando se faz inquérito sorológico, esse resultado é muito baixo. E a gente não sabe se é baixo porque realmente não teve tanta gente que pegou ou porque os testes têm muitos falsos negativos. No coronavírus, pessoas que têm quadros leves não formam anticorpos em níveis detectáveis pela sorologia. Não vai aparecer como um resultado positivo", explica.
Nova contaminação

O infectologista Keny Colares acrescenta que também não há certeza de qual a situação da imunidade pós-infecção. "Não sabemos, por exemplo, se a pessoa que teve a Covid, vai ter de novo. Imune é quando a pessoa não tem mais a doença. Algumas doenças são assim. Você tem uma vez mais e depois nunca mais vai ter como a catapora e o sarampo, por exemplo". No entanto, explica ele, a gripe tem uma imunidade parcial e temporária. Então, a pessoa acometida pela doença, durante alguns meses está protegida, mas depois pode ter de novo.

No caso do novo coronavírus, os especialistas dizem que há indícios recentes de que pessoas que tiveram a doença podem ser contaminadas mais de uma vez. "Não tem nada comprovado ainda. Oficialmente, continuamos pensando que quem pega a doença, pega só uma vez. Mas isso é absolutamente passível de ser modificado", reforça o biólogo e epidemiologista Luciano Pamplona.

Com informações do Diário do Nordeste.

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